Tenho um amigo que nunca teve horário para nada e para completar a família sempre resolveu todos os seus problemas. Depois de formado ele conseguiu excelente colocação no mercado. No entanto, logo na primeira semana ele chegou atrasado duas vezes e foi advertido por seu chefe, que era um profissional muito disciplinado, com mais de 25 anos de empresa. Não acostumado a repreensões, o rapaz retrucou. O chefe não gostou da reação e não teve dúvida: demitiu-o.
Aí, o rapaz, ao chegar em casa, contou a seus pais que fora injustiçado, que o chefe não tinha ido com sua cara e que só pegava no seu pé. Seus genitores lhe deram toda razão, como de costume. Afinal, se eles nunca repreenderam o filho, como um estranho se atrevera a fazê-lo?
Até a metade do século XX a regra era simples: quando adultos falam, crianças ficam em silêncio. Além disso, era intolerável que um filho desse resposta malcriada ao pai ou não cumprisse a uma de suas determinações. Mais tarde a sociedade passou a discutir formas alternativas de educação. Com isso, o modelo antigo foi considerado ultrapassado e prejudicial aos jovens.
A partir daí, os pais foram se tornando cada vez mais permissivos e superprotetores. As mudanças na educação infantil foram tão radicais que as crianças e adolescentes passaram a fazer e a dizer o que quisessem; qualquer limite passou a ser visto como retrocesso ao modelo autoritário. Nota-se, atualmente, uma busca de equilíbrio, pois ficou evidente que os extremos não constituem modelos ideais.
A questão, agora, é saber quando um limite é bom e capaz de ajudar a criança a crescer, e quando não é. Muitos pais não conseguem dizer não a seus filhos, nem impor-lhes limites, por medo de traumatizá-los e de que estes deixem de amá-los. A esse fato lamentável chamo de "ditadura das crianças", onde filhos mandam e pais obedecem como cordeirinhos. Os pais precisam enxergar que a responsabilidade que esperam que seus filhos tenham não surgirá num passe de mágica.
Se você tiver medo de "traumatizar" seu filho e relutar em impôr-lhe limites, a vida fará isso com absoluta certeza, mas de modo muito mais duro do que você faria. Responsabilidade é o resultado de um conjunto de regras e de ações que as pessoas aprendem ao longo da vida; mas só aprendem se lhes for ensinado. E a tarefa de ensinar seu filho cabe a você e não aos professores.
Segundo a psicoterapeuta infantil Asha Phillips, mãe de dois filhos e formada na Tavistock Clinic, na Inglaterra, o "não" é uma palavra difícil de pronunciar quando se trata de nossos filhos, mas se não o fizermos de vez em quando, seremos responsáveis pelas desvantagens que eles terão no futuro. Um "não" dito na hora certa, e com firmeza, é um gesto de amor para com as crianças. A questão é saber como alimentar os sonhos deles e deixá-los crescer com limites sem podar-lhes a liberdade. Não é tarefa fácil, requer disponibilidade de tempo, determinação e paciência. Agora, aqueles que optam pela permissividade e acham que impor limites aos filhos é traumatizante, resta apenas torcer e rezar para que a vida não seja muito dura com eles.